terça-feira, 20 de setembro de 2011

Açores


As lembranças vêm como vento que invade a janela do quarto e arrebata a luz baixa do criado mudo, são pensamentos quentes de  infância  com cheiro vermelho das míticas formigas saúvas, que mesclam-se  com o sofá vermelho das noites torpes com gosto de uva e ruas com pedras  irregulares,a memória é um mascate de relíquias brilhantes , vindas de açores no fundo do peito. Os lábios guardam beijos e línguas, os braços guardam em seus músculos a memória dos abraços, as mãos guardam o tato íntimo entre os dedos. Guardo as idas do eterno em suas diligências ao tempo , guardo muitas de suas aparições , guardo os olhos ternos de minha esposa, seu braços generosos, a fortaleza de seu colo;  guardo os bons sabores, guardo os bons tempos ,  vividos com quem se foi e com ainda está ; os olhos iluminados do meu filho, bem como o seu sorriso, seus primeiros passos, suas palavras de sílabas embaralhadas, seu carinho tão puro , lírico ; guardo o intenso , o furtivo, a respiração ofegante, o à flor da pele, guardo tudo isso com zelo de quem sabe que coleciona o frágil infinito em forma de lembranças , em um mundo dominado pelo bruto esquecimento.

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