Recolheu suas memórias empardecidas e colocou em formol, junto com o humor. Ficou em estado alcalino, mandou consertar suas turbinas, varreu bem as poeiras, as caspas, pôs rijas cordas novas em sua harpa, passou a cuidar do seu jardim: estava infestado de ervas daninhas, terra ociosa e lembranças heroicas de triunfos desconhecidos.
Saiu de longo transe, extensa nostalgia, coma induzido por uma mente doentia que revivia sua vida pueril, enriquecendo aqui e ali o roto passado, fazendo incisões e obliterando os fatos amargos, pondo açúcar nos cafés já bebidos.
Era um aflito editor de mãos trêmulas que tentava mudar o roteiro de filme que já rodou e saiu de cartaz .
Cruzou a soleira tênue , divisa de suas fantasias com seu mundo de imponderáveis planícies e planaltos , ensaiando cambaleantes passos , com suas pernas dormentes , após longo sono embriagado. O sol o queimava rudemente naquela manhã de um mês que nem sabia, só que era azul e o acometia como um pontapé no estômago. Na boca ainda trazia uma saliva agridoce do passado, que aos poucos ia desvanecendo.
As portas do hangar foram abertas e este foi posto a luz da lucidez, em seu voo de estreia. Via do alto a ele próprio em sua totalidade, como num vislumbre Xamânico. Estava enjaulado do lado de fora, na superfície áspera, como num eterno reclame publicitário, onde o produto anunciado era a doce e refrescante inconsciência.
Agora iniciava jornada para dentro de si, a fim de desbravar seu imenso e intacto território e assim remontou o mito, desvencilhando-se das espessas platônicas correntes do mundo exterior para libertar-se na Caverna....
Um comentário:
Platão ganhou ares xamânicos!?? Quem te viu, quem te vê, fiel razão do homem!! Bela remontagem! Pois o que não é remontagem na arte? O que não é atravessado por esse subir e descer de hangares típico do trabalho do escritor?
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